Benefícios
Benefícios

“Toda rigidez muscular contém a história e a significação de sua origem. Quando ela é dissolvida, não só a energia é liberada ...
mas também traz a memória a própria situação infantil em que o recalque se deu.”
Wilhelm Reich
Antes de comentar os benefícios do kung Fu acho necessário dizer que a maioria dos ensinamentos e dos benefícios que recebi dentro dele adveio da convivência com meu professor. Aprendi muito mais observando seu modo de vida e sua conduta frente às adversidades do que em todos os livros que li. Nada supera a bênção que é encontrar um Mestre, um verdadeiro Professor. Nas suas simples e sinceras palavras encontrei muito mais conhecimento que em todo meu curso de formação de psicólogo. Por isso lhes digo ser praticamente impossível, pelas palavras, entender como eu entendo, ou como qualquer praticante entende, o que chamo benefícios. Assim lhes lembro minhas palavras do início do texto:
“O Kung Fu é uma arte milenar chinesa que vem sendo aperfeiçoada pelo tempo e sofrendo mudanças continuamente. Sua história, filosofia e objetivo; suas técnicas, mistérios, rituais e tradições são tão vastos e complexos a ponto de que compreendê-lo lendo um site, por maior e mais completo que seja, se torna impossível.
Sua prática, quando é verdadeira, é de tamanha profundidade, seus efeitos são de tamanha influência na vida de seus praticantes que este texto se destina apenas a fornecer um vislumbre. É uma forma de, através das palavras, lhes levar a um mundo sem palavras, um mundo de silêncio interior longe da loucura da mente, um mundo de puro aqui e agora, um mundo de auto-conhecimento, um mundo que chamo Kung Fu.”
Vamos lá, então.
Por ser de origem oriental e praticado por monges em busca da iluminação, o Kung Fu traz consigo uma filosofia e uma disciplina muito profunda. Baseado num conceito unicista de homem, onde mente e corpo não estão separados, busca um equilíbrio entre o homem e a natureza, o que resulta num equilíbrio entre corpo, espírito e mente, no alívio de tensões, na eliminação do estress, no trabalho da agressividade, na prevenção de problemas, na evolução da consciência, no “domínio” do corpo, no desenvolvimento da sinceridade e da auto-estima, possibilitando uma vida mais equilibrada e saudável.
Na nossa sociedade moderna, o Kung Fu é ainda uma das poucas atividades onde pobres e ricos, negros e brancos, universitários e analfabetos, vivem em harmonia e igualdade. Na medida em que quebra nossos preconceitos mostra que todos temos um chi e ninguém está acima de ninguém. Ninguém é melhor ou pior do que ninguém (ninguém é, todos estão sendo), somos todos diferentes, bons em algumas coisas, ruins noutras. Somos todos um universo em miniatura, diferentes e únicos; todos temos potencialidades que se cultivadas florescem, e ninguém é igual a ninguém. ”Pelo fato de cada sujeito ter sua auto-organização pessoal é que a expressão motriz difere de organismo para organismo, de sujeito para sujeito”.(Bertherat) Por isso cada um faz o uso de que necessita do Kung Fu e assim se beneficia onde mais precisa.
No “tatame do Kung Fu” o praticante se depara com situações que vive diariamente, como ataque, defesa e esquiva. Quantas vezes em nossa vida não precisamos defender o que é nosso, o que sentimos?! Quantas vezes a melhor defesa é o ataque?! E quantas vezes o melhor ataque é a esquiva ou a defesa?! É preciso saber a hora certa de executar com perfeição estas três ações. Para isso é necessária à prática, é necessário auto-conhecimento nestas situações para detectarmos nossos medos, limites, erros, acertos e afobações, para assim atingirmos o equilíbrio e a satisfação, no trabalho, no amor e em todas as esferas da nossa vida. Quantos tombos temos que levar na vida para aprender as lições que ela tem para nos ensinar!? E quantas vezes temos que nos levantar e encarar um mesmo problema – ou adversário – que ainda não derrotamos!? Quantas vezes levamos uma rasteira na luta diária nesta selva de pedra em que vivemos!? E quantas vezes damos rasteiras e derrubamos obstáculos que se põem a nossa frente!? A vida é uma luta, uma eterna luta em busca de ... um par, um ideal, saúde, equilíbrio ... quem sabe o que buscamos?!
Encarar o medo que temos da vida é realmente uma luta. Por isso, muitas vezes, os praticantes sentem tremores, tonturas, sono, frio. Pois aumentar a carga energética é desafiar as nossas defesas. E o corpo reage, durante ou após o treino. Quando fazemos Kung Fu, estamos mobilizando a energia interna (chi), aumentando nossa carga energética, ou seja, atuando sobre os sistemas simpático e parassimpático, responsáveis pela defesa do organismo. As novas perguntas colocadas exigem novas respostas, os novos movimentos a serem executados exigem novos cálculos. Somos assim obrigados a abandonar os velhos hábitos, a velha imagem que temos de nós, a sair da normalidade. Neste momento nos deparamos com o aqui agora, com nossa face real, e isto, muitas vezes, é assustador. O desconhecido, seja a morte, seja uma vida nova, choca-nos, faz-nos recuar, e podemos fugir dele pelo sono, com tonturas, com tremores; cada um foge do seu jeito. Acho que o importante é observar a incapacidade e o despreparo para enfrentar a situação. Uma frase que gosto de repetir é a seguinte: “Se a vida é uma guerra, nossos maiores inimigos estão dentro de nós”.
O Kung Fu prepara o ser humano para o seu dia-a-dia, interferindo diretamente no seu comportamento. Seus movimentos harmônicos, o “olho no olho”, o “espírito de guerreiro”, a coluna ereta, a necessidade de se estar no centro apoiado nos próprios pés exigem, além do “domínio” do corpo, o equilíbrio psicológico.
Um diálogo:
“Kung Fu é mais que um sistema de luta é um sistema de vida. Precisa ser mais veloz que o adversário. Seja ele qual for, porque alguns deles serão mais que simples homens”.
“Que mais poderão ser, shifu? “
“Todos temos demônios internos. Têm nomes diferentes: o medo, o ódio, a raiva. Se não os domina, cem anos de vida são uma tragédia. Se os domina, um só dia pode ser um êxtase.” (filme)
Hoje em dia sabe-se que mais de setenta por cento das doenças são psíquicas (referência capra), fruto de bloqueios e traumas. No Kung Fu vemos que às vezes o problema não está no outro, está em nós. Às vezes o inimigo não está fora, está dentro. Na luta temos oportunidade de observar este fenômeno. Se estivermos bem, consciência, força e agilidade aparecem na hora certa. Se estivermos desequilibrados, tudo o mais se desequilibra. O exterior reflete o interior. Muitas vezes nos deparamos com adversários de menor técnica e habilidade e saímos perdedores. O que decidiu a luta? O perdedor não estava “doente”, pelo contrário, tinha mais técnica e estrutura para ganhar a luta. O que aconteceu então? Que outro fator interferiu? O equilíbrio interno e o chi de cada um decidiu a luta. O psiquismo e o equilíbrio energético do perdedor estavam prejudicados.
Este processo é simples e pode ser descrito mais ou menos assim: A energia reprimida, que não conseguiu saída no seu curso natural volta e se armazena em nosso corpo. Em sua busca frustrada por descarga ela começa a se acumular causando tensão e bloqueio da livre circulação do chi. Tudo isto ocorre devido ao bloqueio da saída energética original. É como impedir um rio de correr no seu curso normal. Ele busca outra saída. Mas agora, com muito mais violência. Seu curso natural foi bloqueado, mas a energia, a água ainda corre, ainda busca o mar. A nascente ainda existe. Em cada momento sua força cresce, quanto mais é represada mais força acumula, até que estoura e deságua. “Reprimir um sentimento só o torna mais forte”, já dizia um antigo provérbio chinês. É difícil lidar com tanta energia represada que busca saída a toda hora. Isto exige um consumo ainda maior de energia do indivíduo, que agora dividido, cindido em duas personalidades – a represa e a água represada, ou o sentimento reprimido e a repressão - reflete desatenção, cansaço e fraqueza. Como se estivesse desesperado, desequilibra sua economia energética e, cada vez mais tenso, buscando uma saída devido a constante repressão, causa a compulsão, os atos inconscientes e neuróticos, tornando-se uma presa fácil em nossa sociedade individualista e competitiva. Assim, por exemplo, temos uma pessoa gorda que não consegue respirar normalmente como toda a criança – com o baixo ventre - e, sentindo-se vazia devido a este fato, compensa essa falta, esse vazio, enchendo a barriga de comida, comendo muito mais do que o necessário, porque o alimento de que precisa é espiritual, existencial; ou então temos outro obeso que “engole” sapos a todo instante e não sabe porque nenhum regime lhe faz efeito.
No Kung Fu cada postura, cada exercício, visa o equilíbrio energético, psicológico, espiritual e biológico. Não é a toa que determinadas dificuldades em executar tais movimento estejam diretamente ligadas as emoções ou desequilíbrios relacionado às partes do corpo que o movimento mobiliza. Aqui entro em uma área da medicina oriental que é muito vasta para ser abordada e que não é minha especialidade (abordei este assunto no capítulo 10 com o viés da psicoterapia corporal). Mas resumidamente lhes digo que os chineses mapearam nosso corpo relacionando certas “doenças” com certas partes do corpo, assim, ombros travados ou tensos podem indicar problemas ligados à responsabilidade. Problemas musculares podem ser sinais de raiva e nervosismo exagerado. Os tendões dizem respeito a ansiedade e os ossos ao medo. O lado esquerdo do corpo se relaciona à emoção, o direito à razão. Os pés e pernas são nosso “chão”, nossa base, nosso contato com a realidade, nosso equilíbrio. Mas não quero me estender aqui, pois, como já disse, o tema é muito complexo e reduzi-lo a receitas de bolo pode causar um grande estrago.
O praticante de Kung Fu é constantemente estimulado a desenvolver consciência de seu próprio corpo e emoções e do corpo e emoções de seus companheiros. Sabemos que as emoções têm gestos corporais particulares relacionados a elas. Quando com raiva os punhos se fecham e a respiração é rápida. No medo o corpo fica rígido e o pulmão cheio de ar. E sabemos também que devido ao processo de socialização, muitas emoções não encontram vazão e são reprimidas, represadas no interior do indivíduo, o que causa tensão em demasia e conseqüente o desequilíbrio energético. No Kung Fu podemos chegar a estas emoções reprimidas através do corpo, da respiração, dos movimentos e exercícios meditativos, abrindo um canal que servirá de válvula de escape para o excesso energético jogando fora estas emoções negativas e possibilitando o contato da consciência com elas. Em outras palavras abrindo uma veia para o rio fluir livremente. Se associarmos a este processo de catarse a filosofia, encontramos a saída de muitos problemas. Pois assim vemos que somente a descarga não basta. Descarregar a negatividade, mesmo em um ambiente seguro, e não se conscientizar do que se está descarregando, é tão inconsciente quanto um surto psicótico. É como somente jogar o lixo fora, para depois acumular mais lixo e novamente jogá-lo fora e assim sucessivamente. Se, por exemplo, o adolescente que odeia o pai ou a mãe (ou o mundo em que está sendo inserido, etc.) descarrega todo este ódio socando seus adversários no sanshou, não souber que está lidando com apenas uma (ou mais uma) manifestação do chi e que, dali a três ou quatro anos tudo isto mudará, sua prática se resumirá somente a socar e a chutar e Kung Fu é muito mais do que isso. Até porque nossa vida não se resume somente a socar e a chutar. Na vida horas temos que amar, conceder, entregar, raciocinar, tudo no seu tempo: na primavera o crescimento, no verão a criatividade, no outono o armazenamento, e no inverno o recolhimento... yin e yang, sempre. Provavelmente com o passar dos anos, e com a conseqüente mutação energética este adolescente (agora adulto) buscará equilíbrio, paz, consciência. Mais a frente ainda buscará longevidade, saúde. Mas como buscar a longevidade na velhice?! Impossível, dificílimo. Por isso a consciência no ato, por isso o livre fluxo energético. Por isso a relação com os movimentos sazonais. Mas vamos entender melhor o a hipótese repressiva.
O mecanismo é fácil de ser entendido. É como se a lareira da sua casa estivesse acesa e a chaminé tampada. Assim, toda a fumaça que perdeu sua saída natural precisa encontrar outro jeito de sair. Nessa busca por outros caminhos ela infesta a casa toda até encontrar uma janela aberta e por ali fluir. Simbolicamente a fumaça na casa é a energia que se transformou na doença e a saída encontrada no lugar da chaminé é o sintoma resultado da chaminé tampada. Aqui se mostra um efeito terapêutico do Kung Fu, que possibilita uma saída para esta energia estagnada, reprimida. Pois o restabelecimento da homeostasia possibilita a consciência e, conseqüentemente a saída do chi represado pela saída natural original. Pois “...uma vez que você reprima qualquer coisa, a energia que está sendo reprimida começa a azedar dentro de você. A mesma energia que poderia ter se tornado uma flor, torna-se um espinho. A mesma energia que lhe ajudaria a crescer se torna estagnada, começa a cheirar mal. A energia precisa permanecer em um estado fluido; a repressão torna sua vida estagnada.” (p.38 Osho “Tao o portal dourado”)
Equilibrado novamente, o praticante tem toda energia a sua disposição, até para perceber o fator determinante do bloqueio. Esta consciência estimula a integração social sem medo, que se faz presente pela necessidade que o praticante tem de respeitar e ser respeitado, sabendo agir e pensar no momento certo, direcionando sua agressividade natural para uma via saudável, espontânea e alegre. Assim, se conhecendo em momentos de medo e exaltação, ou seja, se conhecendo em momentos em que cotidianamente estaria fora de si, o praticante tem um trunfo para estabelecer relações com o mundo que o cerca, e consigo mesmo.
Outro fator importante é o enfrentamento dos próprios medos e limites. Como eu já disse, a própria ciência ocidental, através da psicologia e psiquiatria, concorda sobre a influência da mente em doenças somáticas, esclarecendo que um problema mental é um problema corporal. Ora, uma mente flexível, aberta ao novo, disposta à mudança, reflete um corpo flexível e aberto a novas experiências. Já uma mente fechada, “quadrada”, cheia de pré-conceitos, reflete um corpo “duro”, “quadrado”, com restrição à mutabilidade e diversidade de nossa vida. “E a retração, que fatalmente se agrava com os anos, não teria, paralelamente com as deformações físicas que provoca, um efeito nefasto sobre o psiquismo do indivíduo? Sentir-se achatado, fisicamente diminuído, não é o oposto da sensação de plena realização? Sentir-se esmagado pela própria musculatura não dá a impressão de estar esmagado pela vida? Liberar-se não significa literalmente soltar a musculatura para poder atingir as dimensões a que aspiramos, que são as nossas?” (berterat o corpo tem suas razões, pág. 87)
Assim, quando enfrentamos um medo corporal, dar um salto ou uma cambalhota por exemplo, estamos enfrentando um medo - um trauma, um bloqueio – psíquico também. E quando o vencemos, estamos dizendo a nós mesmos: “Eu posso mudar a mim mesmo, eu posso ser melhor, eu tenho capacidade e coragem de melhorar”. A influência deste processo na auto-estima dos praticantes, na confiança em si mesmos, e em todas as esferas da vida são claras. É sempre bom saber que a gente pode surpreender a gente mesmo. Assim, a prática do verdadeiro Kung Fu estimula o desbloqueio da criatividade e a desinibição do praticante que deve se expressar constantemente, tanto física (golpes e movimentos), psicológica (emoção, atenção e senso-percepção) e “espiritualmente” (“olho de tigre”, “espírito de guerreiro”, “garra”).
Outro trunfo do Kung Fu é que o corpo fala e não mente, ficando muito fácil detectar os desequilíbrios, pois, instalados no corpo, são demonstrados numa postura curva, nos olhos que fogem ao olhar, nos pés tortos, na cintura travada, etc.
Devido à necessidade de atenção, consciência e concentração, o praticante deve se concentrar cem por cento no aqui agora, no momento presente, a tal ponto de se esquecer dos problemas e compromissos do dia-a-dia. Pois, do contrário fica uma presa fácil ao seu oponente. A energia que estava dividida entre “o cheque que vai cair amanhã”, “buscar o carro no mecânico”, “comprar ou não tal bem”, “ir ou não ao show”, volta-se inteiramente para dentro e é completamente absorvida. No fim de um dia de treino, o praticante dorme como nunca e recarrega seu corpo com uma energia nova e fluida. O efeito energético na saúde dos indivíduos que este estado de presença de espírito causa é incalculável. O insight é tremendo a ponto do praticante se sentir leve e relaxado ao fim do treino.
O processo é mais ou menos assim: muitos de nós em várias situações de nossas vidas não podemos nos expressar como desejamos. Um chefe autoritário, um vizinho que espanca seus filhos, regras sociais complicadas, etc. nos obrigam a guardar dentro de nós emoções, pensamentos e atitudes que assim são desviadas de seu caminho natural se perdendo (dentro de nós) na sua busca por uma saída. Como eu já disse, esta energia correspondente a tais sentimentos e humores causa desequilíbrio, e se não descarregada é nociva ao organismo. Aí entra o Kung Fu, como uma forma de extravasar tal energia estagnada possibilitando o alívio de tensões e o equilíbrio novamente. “Quando Reich estudou as personalidades neuróticas, descreveu suas camadas em termos de camada superficial controlada, que presta devoção, da boca para fora, aos valores e objetivos morais; uma camada mediana, destrutiva e patológica, o ”inconsciente freudiano reprimido”; e uma fonte primária de impulsos biológicos não distorcidos. No neurótico, estas camadas, geralmente, estavam em conflito entre si... um exemplo...uma pessoa neurótica, obcecada pelo desejo de torturar alguém, geralmente se sente consideravelmente culpada, e luta para suprimir tais desejos. Se falhar e os realizar, corre o risco de tornar-se um pervertido sádico. Se tiver sucesso e os bloquear, transformar-se-á numa personalidade neurótica com uma boa couraça e uma perigosa camada mediana reprimida. A saída para esta pessoa, se quiser recuperar uma vitalidade real, é encontrar uma situação, semelhante àquela que uma terapia pode lhe oferecer, onde possa dar vazão total aos sentimentos que mantém reprimidos, sem ter que realizá-los socialmente.” (boadella pág.209,210) No Kung Fu são dadas muitas oportunidades ao praticante para que libere seus impulsos sádicos e destrutivos em um contexto seguro.
Nas palavras de Fritz Perls: ”Se não sabemos se vamos receber aplausos ou vaias, nós hesitamos; então o coração começa a disparar, e toda a excitação não consegue fluir para a atividade, e temos “medo de palco”. Assim, a fórmula da ansiedade é muito simples: a ansiedade é o vácuo entre o agora e o depois. Se você estiver no agora não pode estar ansioso, porque a excitação flui imediatamente em atividade espontânea. Se você estiver no agora, você será criativo, inventivo. Se seus sentidos estiverem preparados, e seus olhos e ouvidos abertos, como em toda a criança pequena, você achará a solução.” (Gestalt terapia explicada pág. 15, 16)
Ter o insight de que somente nos próprios instintos e na própria percepção está a solução dos desafios encontrados na vida, evita as crenças exageradas, a necessidade de autoridade e a submissão cega a outros; por outro lado, estimula a reflexão, a originalidade e a criatividade necessárias para resolver tais dificuldades e inesperadas situações. É um fato comprovado que quanto menos confiança tivermos em nós mesmos, quanto menos contato tivermos com nós mesmos e com o mundo, maior será nosso desejo e necessidade de controle.

Relacionando novamente um movimento com um estado de espírito, lhes comento sobre a relação existente entre o corpo que sofre uma queda e a mente que sofre uma queda. Perder totalmente a base, ter os pés arrancados do solo e ser jogado de costas no chão não mobiliza somente o corpo. A mente, nossa postura mental é mobilizada também. Quando nossos pés são literalmente “varridos” do chão e somos jogados de costas nele, nossa mente e todos os nossos hábitos também o são. Neste momento, exatamente no momento do desequilíbrio, no centro do furacão, uma revolução está acontecendo. Todos os esquemas corporais se perdem, a mente perde o controle do corpo, o rosto muda completamente, e quando nos recompomos, somos outra pessoa, é mais ou menos como levar um choque ou um susto, que abrem nossos olhos para algo até então desapercebido. Fritjof Capra o chama de “ponto de mutação”, Osho de o “salto quântico”, os psicólogos de insight. Eu o chamo de saber aproveitar as oportunidades.
Como último benefício saliento o duro aprendizado de dizer “não”, de “rejeitar” um companheiro. Muitas vezes um colega de treino nos é incômodo, chato, ou simplesmente está em outra sintonia, busca outras coisas na vida e no Kung Fu. A tal ponto que fazer uma dupla com ele estaria em desacordo com nós mesmos, com nosso processo de desenvolvimento. Esta é a hora de dizer não, de dizer: “Não quero fazer dupla contigo colega! E isto não significa que te odeio ou que te quero mau! Simplesmente não sinto que seria saudável.”
Na minha experiência, noto que a maioria dos alunos fica constrangido quando se vê obrigado a tomar esta atitude. Isto ocorre porque também não aceitam o não do outro. Mas a constante situação os obriga a refletir: “Tenho que fazer alguma coisa! Tenho que resolver esta situação! Tenho que encarar este problema algum dia da minha vida!” E na medida em que começam a dizer “não” começam também a aceitar o “não“ do outro. Esta é uma experiência para poucos corajosos que se arriscam, e que quando vivida dá um enorme insight. Pois agora os acompanha a consciência de que dizer o que sentem para as suas companhias é de extrema importância para manter uma relação saudável. Assim aceitam com maior facilidade e naturalidade a complexidade da vida, aprendendo a lidar com as diferenças.
Imagine girar 360º com a cabeça, e o resto do corpo, verticalmente. Imagine ser jogado ao chão, mas imagine a sensação segundo por segundo da queda precedente do contato do corpo inteiro com o chão. Imagine a sensação de manifestar todo seu desejo de luta, confronto, desafio. Imagine ficar um minuto de cabeça para baixo. Imagine concentrar toda sua energia em observar o próprio corpo, os próprios músculos, os próprios pensamentos. Imagine-se fazendo um movimento muito lento enquanto os pensamentos em sua mente fervilham velozes. Imagine-se, de repente, em meio a quinze, vinte pessoas todas dispostas a colocá-lo no chão e imobilizá-lo. Imagine-se tentando fugir... Ah, os caminhos são tantos... e cada dia um diferente.