Filosofia e Religião
O Chi

"Querer conquistar e manipular o mundo, sei por experiência que não dá certo.
O mundo é uma coisa espiritual, que não se deve manipular.
Quem o manipula o destrói, quem quiser segurá-lo, perde-o.
As coisas ora se adiantam ora se atrasam, ora irradiam calor, ora sopram geladas,
ora são fortes, ora delgadas, ora flutuam na superfície, ora despencam.
Por isso o sábio evita todo excesso: de quantidade, de número e de medida”.
Lao-Tzu
“Chi” é um nome. Representa a “energia vital”, “universal”. Sua história remonta os mais de cinco mil anos da Antigüidade chinesa e suas lendas. Passa pelo mito da civilização perdida de Atlântida (diz-se que seu povo tinha o dom de ver a energia fluindo nos corpos de seus semelhantes e que se comunicava com a natureza e todas as formas viventes); pelo taoísmo de Lao Tzu (que cita em uma passagem do Tao-te King: “o chi primordial situa-se ao redor do dantien” (ponto da acupuntura situado abaixo do umbigo); pelos hindus (pranna), pela acupuntura, pela homeopatia e atravessa continentes. Em todas as partes do globo e em todos os ramos do conhecimento humano, encontramos representações, significantes, alusões e tentativas de dar nome, quantificar, desenvolver e usar o ”chi”.
O “chi”, então, seria o nome dado à nossa energia vital, à nossa alma. Também o chamam de qi. Freud chamou de libido, Reich de orgone, alguns indianos de kundalini, outros de prana, aura. O recipiente não interessa (dhamma, moksha, aura, alma, existência, deus, espírito), e sim o conteúdo. Quero dizer que o recipiente “palavras” não é importante aqui, e sim a energia, a vida, o conteúdo a que estas palavras se remetem e que é uma das mais importantes técnicas que envolvem a herança do Kung-fu de Shaolin.
Diz-se que um homem expande seu chi quando está se sentindo bem e amando, e que ele retrai esta energia quando está doente ou com medo. Diz-se também que ela pode ser encontrada fora do corpo humano, no universo, na atmosfera, nos rios, lagos, nas tempestades, no ar, e em todas as coisas. Existem pessoas com um chi forte e pessoas com um chi fraco. A diferença entre a vida e a morte é a presença ou ausência do “chi”.
“O chinês” entende o ser humano como mais uma das expressões desta energia que chamou chi, uma energia que preenche todo o espaço cósmico e se expressa em diferentes concentrações, movimentos e formas. A ele se aplicam os princípios taoístas Yin e Yang. Para que exista saúde é necessário um perfeito equilíbrio entre esses dois opostos complementares. A doença, segundo os chineses, é resultado de um desequilíbrio energético “chi”, e curá-la depende do restabelecimento deste equilíbrio. O chi se move pelo nosso corpo através dos meridianos (ou músculos, tecidos, sangue e neurônios). Ele se concentra em centros energéticos (chamados de chacras ou anéis). Determinados estados de espírito influenciam na sua circulação: na raiva o chi sobe, na alegria o chi se dissolve; na tristeza o chi fica “atado”, no pavor o chi desce. Se nos encontramos frente a uma situação que nos paralisa, que nos bloqueia a ponto de tencionarmos partes de nossa musculatura, esta tensão dificulta a livre circulação do chi e causa problemas. Cada um o percebe e o define de um jeito. Às vezes, como força física inundando as veias de “energia”; outras vezes como uma espécie de brisa densa e, invisível aos olhos, que toma conta de determinados ambientes; ainda noutras vezes, no olhar de certas pessoas. Quando massageio alguém, sinto que produzo em seu corpo círculos concêntricos de energia no raio de meus dedos. Do mesmo jeito que pedras jogadas num lago produzem círculos concêntricos e afetam aos poucos todo o lago, sinto que meus dedos afetam este corpo que é, para mim, uma espécie de lago de energia. Um dos maiores objetivos da prática do Kung Fu é restabelecer a livre circulação do chi pelo corpo, deixando seu praticante com a energia leve e fluida. O importante é saber onde investir seu chi de forma natural e saudável, sem esperar por “receitas de bolo”. O certo é que quando equilibrados com o fluir do chi experimentamos uma ação sem esforço.
No Kung-Fu de Shaolin temos várias formas de trabalhar com o chi: meditação, exercícios, alongamentos, chutes, saltos, acrobacias, sanshou, qi gong, etc. Talvez uma das formas mais famosas e espetaculares de se trabalhar o chi seja da forma que chamamos chi kung (Qi Gong) forma marcial de usá-lo que significa literalmente “trabalho de energia”. O maior responsável pelo desenvolvimento e passagem das técnicas de chi kung foi o mestre Ku Yu Cheung (Gu Ru Zhang). Capaz de suportar pesos e golpes muito acima do comum sem sofrer danos, curar doenças graves somente com as mãos e de quebrar 13 tijolos extra duros com as mãos vazias, Ku Yu Cheung ficou muito conhecido na China na década de trinta quando, em uma briga, matou um cavalo com uma palmada. Ku Yu Cheung passou a seu herdeiro Yang Sheum Mo esta técnica que através dele chega ao mestre Chan Kowk Wai e é disseminada no Brasil.
Marcial, medicinal ou existencial, conhecer e dominar o chi é de extrema importância na prática do Kung Fu.
Através de exercícios respiratórios aliados aos movimentos corporais característicos a eles, o praticante hábil tem uma ferramenta para trabalhar energeticamente com o próprio corpo. Aumentar a capacidade pulmonar, direcionar a energia conscientemente para as partes do corpo que dela necessitam, fortificar os vasos sanguíneos (veias e artérias), influenciar no trabalho dos órgãos e vísceras , enfim, fazer fluir os fluidos corporais e chi em busca da saúde e longevidade.
Tarefa nada simples, pois trabalha com o sistema que, aqui no ocidente, chamamos de parassimpático. “A respiração artificial muda a proporção entre a quantidade de alimento que tiramos do ar e a de nossos outros alimentos. Em decorrência, se você aumentar ou diminuir a entrada de ar, ser-lhe-á necessário aumentar ou diminuir a entrada das outras espécies de alimento.” (gurdjieff 187) Assim, para manter um equilíbrio justo, é necessário ter conhecimento e consciência do próprio corpo. O que envolve ter conhecimento e consciência da inter conectividade entre todas as células do corpo, entre o corpo e os alimentos que nele entram, entre o corpo e o mundo, entre o corpo e o psiquismo, enfim, para conseguir obter saúde através da prática do chi kung é necessário vasto conhecimento acerca de vários fenômenos: anatomia, fisiologia, medicina, alimentação, filosofia, espiritualidade, etc.
“Modificando artificialmente a respiração, começamos por modificar o ritmo de funcionamento dos pulmões, mas como a atividade dos pulmões está ligada, entre outras, à do estomago, o ritmo de funcionamento deste último fica modificado... Freqüentemente, isso leva a uma dilatação do coração ou a um estrangulamento da traquéia, quando não são o estomago, o fígado, os rins ou os nervos que são atingidos”.(187) Por tudo isto, praticar o chi kung é, ao mesmo tempo, ótimo e perigoso, podendo ser saudável ou nocivo. Talvez por isso, só se aprenda a praticá-lo, na sistemática do estilo Shaolin, após anos de treino.