Treino
O cumprimento

Uma das primeiras coisas que o aluno aprende quando entra num “tatame” de Kung Fu é a reverência. Sem saber muito por que, ele acaba adquirindo este hábito que é praticado por todos. Mas qual a importância da saudação no recinto marcial?
Primeiro: “... é necessário reconhecer que o tatami é símbolo do mundo onde ocorre à batalha do homem consigo mesmo, ou seja, aquele que entra dentro de um tatami, quando enfrenta uma luta, vai se encontrar frente a frente com seu próprio medo, seus próprios defeitos e suas próprias faltas e, justamente no tatami, o indivíduo se desnuda de seus falsos medos e todas as inibições até ficar completamente só, consigo mesmo”.(O espírito das artes marciais pág. 122)
Como eu já disse, o tatami reflete nossa vida, nossas atitudes ali espelham nossas atitudes em nossa vida. Quando lutamos, meditamos ou nos exercitamos é nossa alma que se agita, nosso ser total está envolvido e nosso chi é mobilizado. Cumprimentar então torna tudo isto sagrado, espiritual. Quando me curvo em respeito e faço a reverência busco uma sintonia com a ordem natural das coisas, demonstro meu respeito, humildade e gratidão pela oportunidade de, mais uma vez, poder exercitar-me em busca do desenvolvimento e da maturidade.
Segundo: eu cumprimento os mestres, eu lhes agradeço por terem dedicado suas vidas a esta arte marcial, pois somente por isso me foi possível conhecê-la. Eu agradeço também a meu mestre, que durante muitos anos e até hoje me aceitou como seu discípulo e voltou seus olhos, sua mente e seu coração para o meu desenvolvimento.
O mestre representa a sabedoria no corpo do ser humano. “Sempre é necessário dizer que quando se saúda a um mestre das artes marciais orientais, a saudação vai dirigida ao que ele representa e ao intenso trabalho que lhe custou para chegar a ser um verdadeiro mestre e não à pessoa em si.”(o espírito das)
Terceiro: cumprimentar os mestres que tem sua foto na parede é lembrar-se deles, é evocar suas almas para nos guiar neste mundo de “maya”; ao fazê-lo, evocamos também todos os espíritos iluminados e pedimos que nos guiem neste árduo caminho com sua energia, com sua consciência. De acordo com a crença chinesa da reencarnação, a alma não morre, e é justamente a alma destes seres que cumprimentamos. Que sua aura ilumine nosso caminho contribuindo para a eliminação de nosso carma, que sua energia esteja presente no momento do treino nos protegendo e auxiliando.
Quarto: psicologicamente falando, quando todos reunidos num recinto realizam movimentos, pensamentos e sentimentos iguais, cria-se um ambiente (sincronia, sintonia, vibração), uma espécie de “energia” comum, um inconsciente, que se transforma num chão fértil para o desenvolvimento da unidade do grupo e da virtude de seus integrantes.
Cabe ressaltar aqui que usei a palavra japonesa “tatami” para ilustrar este tópico devido a sua popularização no Brasil. Na China ela não é utilizada (salvo em pequenas partes devido a invasões japonesas), os chineses não usam tatame, até o desconhecem. Geralmente esticam uma lona ou alguma forração (tapete grosso) sobre o chão, treinam em gramados e em áreas de plantio. Antigamente era comum enxadas nas academias que serviam para afofar a terra onde se davam os treinos.