Iluminação

Iluminação

“Serás capaz de educar a tua alma para que ela abarque a Unidade sem se dispersar?

Serás capaz de unificar a tua força e conseguir a delicadeza de uma criança?”

Lao Tzu

Sidarta Gautama (ou Sakyamuni) era um príncipe muito amado pelo seu pai que só lhe dava do bom e do melhor, sempre tentando afastá-lo das “coisas feias da vida”, a ponto de criar uma cidade só para ele. Um dia Sidarta e seu amigo Govinda fogem do cerco e se deparam com a morte. Homens velhos, pobres, mendigos, sem dentes: a cremação. Até então Sidarta não as conhecia, nem a velhice nem a pobreza. Isto o afetou profundamente. Ele disse: “Se tudo acaba assim eu não quero esta vida. Isto é pouco para mim, quero ir além da morte, quero conhecer a vida em sua totalidade, não quero acabar assim”.

Abandona seu reino, seu trono, seu pai, sua mãe, seus amigos, sua sociedade. Na manhã seguinte parte em uma jornada interior rumo ao desconhecido. Vivendo como andarilho (samana), passa por vários métodos, técnicas, exercícios e tentações de significado indescritíveis em palavras e que extrapolam meu conhecimento.

Uma das meditações que Buda praticou chama-se vipassana, em páli – língua que Gautama falava – significa testemunhar. “Há três etapas no testemunhar e Buda começa com a mais fácil: o corpo.

É fácil testemunhar minhas mãos se movendo, minha mão sendo levantada. Podemos testemunhar a nós mesmos andando na rua, podemos testemunhar cada passo à medida que andamos. Podemos testemunhar enquanto comemos. Assim, o primeiro passo na vipassana é testemunhar as ações do corpo, que é o passo mais simples.

Enquanto testemunhamos o corpo certas coisas aparecem, um certo vislumbre de algo maior. Quando se move as mãos testemunhando, observando, em estado de alerta, de consciência, sente-se uma certa graça, um silêncio nas mãos.

Buda costumava andar tão vagarosamente que, muitas vezes, perguntavam-lhe porque andava tão lentamente. Ele dizia: ‘Faz parte da minha meditação: andar sempre como se estivesse andando no inverno, num rio gelado... vagarosamente, alerta – porque o rio está muito gelado: consciente porque a corrente está muito forte; testemunhando cada um dos passos, porque se pode escorregar nas pedras do rio.”

O segundo passo é observar a mente. Agora nos movemos para dentro de um mundo mais sutil: a observação dos pensamentos.

É como se os pensamentos pudessem ser tocados. Até a ciência ocidental já reconhece que os pensamentos são ondas sutis, ondas eletrônicas, ondas de rádio, e são tão materiais quanto nosso corpo. Não são visíveis, como o ar não é visível, mas o ar é tão material quanto as pedras. Assim são nossos pensamentos, materiais e invisíveis como o ar.

Este é o passo do meio. A única condição é: não julgue. Porque no momento em que começar a julgar se esquecerá de observar. No tempo em que estiver julgando: “este é um bom pensamento”, você se envolveu e envolvido não consegue testemunhar, observar. Você não consegue ficar alheio, ficar de pé ao lado da estrada e apenas observar o tráfego. O importante é não se tornar parte desses pensamentos, nem para valorizar, avaliar, condenar; nenhuma atitude deve ser tomada sobre o que está passando pela sua mente.

Você deve olhar seus pensamentos como se observasse nuvens passando no céu. Você não emite julgamentos sobre elas: esta nuvem negra é muito ruim, esta nuvem branca parece um sábio “Nuvens são nuvens, nem são más nem são boas. Assim são os pensamentos – uma onda de curta duração passando através de sua mente.

IluminaçãoObservando sem julgamentos aos poucos se terá uma surpresa, um insight maior. A medida que sua energia é concentrada no observar, os pensamentos virão cada vez menos. A proporção é a mesma. Se você estiver investindo cinqüenta por cento de sua energia no testemunhar, então cinqüenta por cento dos seus pensamentos desaparecerão. Sessenta por cento no testemunhar equivalem a quarenta por cento de pensamentos. Quando você for noventa e nove por cento uma testemunha, somente de vez em quando haverá um pensamento solitário, um por cento, passando pela estrada; desse modo o tráfego se foi, e a energia investida neles fica com você.

Passado este estágio, Buda nos remete aos sentimentos, emoções e humores; da mente para o coração. A condição é a mesma: não julgue, apenas testemunhe. E a surpresa, o insight é que a maioria dos sentimentos e emoções é que dominam você, o possuem, como a um robô. Quando estamos tristes, estamos possuídos pela tristeza. Quando você está se sentindo com raiva, não é algo parcial. Você se torna cheio de raiva; cada fibra do seu ser está palpitando de raiva, a ponto de você fazer e agir tão inconscientemente de modo que se arrepende depois.

Buda então nos diz que observando o coração, a experiência será de que agora nada o possui. A tristeza vem e vai, você não se torna triste. A felicidade vem e vai, você não se torna feliz. O que quer que se mova nas profundas camadas do seu coração não o afeta absolutamente. Pela primeira vez você se percebe um pouco mestre de si mesmo. Pela primeira vez você tem um vislumbre de como é pegar as rédeas de sua vida. Você não é mais um escravo para ser puxado ou empurrado para este ou aquele lado: não está à mercê de qualquer emoção ou sentimento de qualquer pessoa que pode perturbá-lo por qualquer besteira. Sim, você sente amor, mas com consciência. Sim, a raiva vem, mas é como se fosse uma visita chegando em sua casa, você a recebe, fica com ela, interage com ela, mas não fica inconsciente.

Sidarta então nos diz que quando conseguirmos nos tornar uma testemunha do terceiro passo, nos tornamos pela primeira vez mestres de nós mesmos. “Nada o perturba, nada tem poder sobre você; tudo permanece distante, bem abaixo, e você está no topo de uma colina”.

Daí vem o quarto passo; que não pode ser dado, que não é uma ação, que não pode ser descrito em palavras, e que alguns chamam de iluminação.

A história nos conta que Sidarta senta-se junto à árvore bhodi, e aos 29 anos, assim como uma folha se desprende da árvore ele dá o salto, se desprendendo do ego, do mundo de maya, e encontra a si mesmo e a todas as coisas dentro de si.

Esta foi a história de um Buda (palavra que significa aquele que acordou) de uma consciência elevada e distinta da nossa, por isso sinto ser difícil compreender o conceito de “iluminação” sem termos que acreditar nele. Sobre este fato um iluminado chamado Gurdjef argumenta muito bem. Nas palavras de Osho: "... a maioria da humanidade vive numa selva: densa, profunda, escura, primitiva, primordial. Não existe nenhum caminho, nem mesmo uma trilha, e o homem não está indo há lugar algum, vai se batendo de um canto escuro a outro. A maioria da humanidade vive na selva, no estado inconsciente da mente. As pessoas estão adormecidas: elas são sonâmbulas."

Este é o ensinamento de Buda, Cristo, Gurdjieff, Kabir: a maioria não vive, somente existe, vegeta. Você parece que está alerta: você não está. Você vive numa densa neblina, coberta de nuvens. A sua vida é mecânica. Sim, as coisas acontecem, mas elas acontecem exatamente como para um mecanismo: você aperta o botão e a luz se acende, exatamente assim. Alguém aperta um botão em você e a raiva aparece; uma outra pessoa aperta um outro botão e um outro humor o rodeia e não há nenhum simples intervalo momentâneo entre o apertar o botão e o humor aparecer. É mecânico. Você não é um mestre, é um escravo.

Gurdjieff costumava dizer que o homem é como uma carruagem: o condutor está bêbado, o mestre está dormindo profundamente dentro da carruagem, os cavalos estão descontrolados e vão para onde querem ir, e todos os quatro cavalos estão indo em quatro direções. Qualquer transeunte pode pular para a carruagem, tomar conta e dirigir a carruagem; o condutor está bêbado, e o mestre está dormindo profundamente. Este é o estado da sua vida: o seu núcleo mais profundo esta dormindo profundamente e a sua consciência está bêbada. O seu corpo é uma carruagem, e qualquer capricho, qualquer desejo entra em você, dirige-o por um certo tempo, leva-o a algum lugar, deixa-o lá e então outro capricho, outro desejo... e, desta maneira, você continua em zigue-zague, batendo nesta pedra, batendo naquela árvore. Na escuridão, você continua a se machucar, ferindo a si mesmo. Toda a sua vida não é nada mais que um profundo pesadelo.

Tente entender outras características deste estado. Primeiro, ele corresponde ao que Carl Gustav Jung chama de “inconsciente coletivo“,e também ao que Sigmund Freud chama de ‘inconsciente”. É o mais baixo estado da consciência. Neste estado, nenhuma busca é possível. Você permanece à mercê dos acasos porque nunca pega sua vida nas mãos...

Cada desejo, quando toma posse de você, se torna o seu mestre. Quando você está com raiva, a raiva torna-se o seu mestre, toma posse de você completamente. Não é que você esteja com raiva; você se torna à raiva e, na sua raiva, fará alguma coisa da qual se arrependerá. Esta é a ironia: um outro ‘eu’ irá se arrepender do ato de outro “eu”. A raiva fez alguma coisa, machucou alguém, então se foi; agora você sabe que fez alguma coisa errada. Este é um outro “eu”, outro desejo, outro estado, outro humor. Agora você sofrerá, e gostaria de ir e pedir para ser perdoado. Este é alguém mais, não é a mesma pessoa. Onde estão aqueles olhos vermelhos, aquela cara violenta, aquela prontidão para matar e ser morto? Todos eles se foram.

Uma vez, um homem cuspiu em Buda; ele estava furioso. Ele tinha que estar, senão é muito difícil cuspir num Buda, parece quase impossível. Como ele poderia fazê-lo? Mas ele tinha que estar com muita raiva, furioso. Buda limpou-se com seu xale e perguntou ao homem: “Você tem alguma coisa a mais para me dizer?”.

O homem ficou envergonhado, não pode dizer uma única palavra. Ele foi embora. Não pode dormir a noite toda; de manhã, ele veio. Caiu aos pés de Buda e disse: “Por favor, perdoe-me. Foi pura estupidez, eu estava louco”.

Buda disse: “Você não estava; esta é a razão pela qual você não poderia fazê-lo. Você não estava, então não se preocupe. Você estava absolutamente inconsciente, então você não é responsável. Então, não se arrependa! Aquela era uma outra pessoa que veio e cuspiu em mim, você é alguém totalmente diferente. Aquele homem estava furioso, estava louco.

Iluminação

Você está são, você está tocando os meus pés. Não, não, ambos vocês são tão diferentes, eu não posso fazer uma conexão”.

No estado de “selva”, o homem é uma multidão. Muitas pessoas moram em você, desconectadas, fragmentadas. Você não tem uma alma. Esta é a razão pela qual Gurdjieff costumava dizer uma coisa muito significativa: que o homem não nasce com uma alma. O homem nasce com muitos “eus”, mas não com uma alma. Quando todos estes “eus” se fundem num e todos estes “eus” se transformam quimicamente e se tornam uma unidade, então, você tem uma alma. Nem todas as pessoas têm almas. Você não tem uma alma através do nascimento: muito significativo. Uma pessoa tem que se transformar numa alma, a pessoa tem que integrar esta multidão interior, estes “eus” que lutam uns contra os outros...” ( caminho do amor, p.62) Acredito ter sido este o feito de Buda, integrar seus “eus” num só.

Tel.: (19) 3432-3818 - Academia Áquila, rua XV de Novembro, 1816 design: Rods