Kung Fu
O Kung Fu

"Enobrecer os sentimentos do homem, enriquecer-lhe a vida, proporcionar-lhe alegria e sentido, é a missão da arte.”
Mokiti Okada
Difícil falar dele porque “ele” não existe como coisa, é mais ou menos como o ar, mas ainda mais invisível. Kung Fu é observação, consciência, controle. Kung Fu é atingir a unidade, é encontra-se consigo mesmo. Diz-se que quando um estudante o desperta - abre seu coração para “ele” - “ele” simplesmente flui, como a fragrância de uma flor, como um rio em direção ao mar. É quase como uma criança, inocente e pura. Verdadeiro, amoroso e dócil, mas também sincero, odioso e cruel. Nele se vê refletido o interior de cada um. Como um espelho, mostra o que somos e como somos. Coloca-nos em contato com nós mesmos, mostrando nosso caminho.
Uma vez vi uma divisão interessante, ela se dava em técnicas marciais, medicinais, culturais e filosóficas. Apesar de saber que tal divisão ficaria estranha a olhos orientais (mais ou menos como querer dividir o futebol em técnicas de corrida, de bola, de torcida, chutes, etc) me arrisco a reproduzi-la:
Marciais:
Shao Lin Norte, Tai Chi Chuan Yang, Pa Kua Zhang, Xing Yi Chuan, Choy Li Fat, Luo Han, Tan Tui, Tong Long, Chi Kung, Palma de Ferro, Wushu de competição.
Medicinais:
Massagem, Fitoterapia, Tui Na, Do In, Acupuntura.
Culturais:
Dança do Leão, Dança do Dragão.
Filosóficas:
Budismo, Confucionismo, Taoísmo.
O termo Kung Fu é aplicado às artes marciais chinesas há séculos e significa, dentre outras traduções, "trabalho duro", “prática vigorosa”, “habilidade em executar alguma coisa”, “trabalho com habilidade”, “maestria” (na China ele é conhecido pela palavra Wu Shu). Essa descrição se encaixa nos rigores envolvidos no aprendizado e prática das artes marciais chinesas e em qualquer atividade onde se busca a transcendência e a superação.
Analisando os ideogramas utilizados para representar Kung Fu entende-se melhor seu significado.
Kung
Fu Kung representa “trabalho árduo”, “grande dedicação”, “esforço físico e mental”, é formado pela junção de dois ideogramas:
Um primeiro ideograma que é literalmente traduzido do chinês para o português como “mente”, significa “trabalho manual, oficio” e a sua presença aqui apenas empresta a pronuncia ao ideograma composto.
E um segundo ideograma que significa “força”. Originariamente era representado pelo desenho de um arado.
Assim, se juntarmos os dois significados, temos o esforço físico e mental, o suor para a realização de algo que deixa marcas - como o arado que rasga a terra - que transforma.
Fu transmite a idéia de “maturidade” ou de “experiência”. Simboliza também “marido”, ou seja, aquele que constitui uma família e que se responsabiliza por ela. O significado original deste ideograma é “ser”, “individuo”.
Desmembrado:
“Fu” é composto por dois traços que formam o ideograma “pessoa”. Este ideograma nasceu do desenho de uma pessoa de pé, com os braços ao longo do corpo e as pernas afastadas.
Já os traços horizontais, quando cortam o ideograma “pessoa”, ”representam presilhas no cabelo”. Assim, “fu” significa literalmente “pessoa com presilhas no cabelo”. Se estudarmos um pouco mais, veremos que na China antiga os anciãos não costumavam cortar os cabelos – quanto mais longos, mais velhos eram eles. “As pessoas mais velhas, que tinham longos cabelos, e que, portanto, usavam presilhas para prendê-los, eram também as de maior prestígio e respeito entre a família e o povo”.Nessa época e até hoje, os chineses valorizavam a sabedoria relacionada à experiência de vida, e, justamente por isso, à velhice.
De um estudante de Kung Fu espera-se determinação, consciência, vontade, resistência, dedicação, disciplina e prazer. Combinando isso a altos padrões de moral - lembrado sempre de que toda a moral que é imposta é imoral - caráter e disciplina mental, o estudante tem um caminho nada fácil a seguir. Todos sabemos como é difícil ser sincero consigo mesmo e com os outros, e kung Fu nada mais é do que pura sinceridade. Seu rio deve correr no seu rumo, sua energia, para ser saudável e equilibrada, deve encontrar descarga na saída original. Do mesmo jeito como quando tens sede queres água. Se estas condições não são preenchidas, a prática se torna uma simples repetição de movimentos vazios. “... A arte marcial manifesta-se no homem, quando este chega a tomar consciência de que faz parte do Universo e inteligentemente faz uma analogia entre a expressão do Movimento Universal e a expressão de seu próprio movimento”. (p.22 o espírito das artes marciais)
Ao praticar um kati, ou envolver-se numa luta, o praticante deve usar seu chi, sua energia interna, e para isso necessita estar inteiro, 100% no agora, íntegro, completo, equilibrado. Necessita movimentar-se com vigor, com vida, com prazer, com graça.
Ao mesmo tempo em que está envolvido numa questão de vida ou morte; por fora em tempestade, mas por dentro calmo, observando tudo que se passa; lutando e meditando simultaneamente. “Entregar-se ao livre fluxo do universo, sem opor resistência aos fatos, traz ao homem o auto-conhecimento necessário para evoluir”, já dizia um antigo ditado chinês.
Assim, o Kung Fu não é simplesmente uma forma saudável de exercícios físicos e sistema de defesa pessoal, mas uma forma de terapia, é uma arte que busca o auto-aprimoramento. Exige envolvimento pessoal, existencial. O corpo de um indivíduo não pode agir sem a interferência da mente, e a mente deve ser orientada a organizar o espírito. Instinto, intelecto e intuição em sintonia. Corpo, mente e alma em sintonia. Harmonia entre o homem e o cosmos.