O Kung Fu de Shaolin

Shaolin

Shaolin é a mais conhecida escola de artes marciais da China e talvez do mundo. Fica próximo a uma floresta nova (em chinês shao lin), ao norte da China, daí o nome. Construído por volta do ano 495, antes da chegada de Bodhidharma, tinha como principal função à formação de monges budistas, era um templo dedicado no princípio somente ao desenvolvimento desta religião, teve uma história turbulenta, enfrentando guerras, incêndios e invasões. Em seu apogeu possuía aproximadamente cinco mil monges.

Religiosos, concentrados num templo longe das cidades, dedicados à meditação, à vida longe das coisas mundanas, com votos de não violência e buscando a iluminação, não se preocupavam com nenhuma forma de luta ou política. Praticavam os “movimentos” visando auto-conhecimento, consciência e saúde.

As condições de vida na China eram muito perigosas, resultado das muitas guerras internas e invasões, por isso, a saída dos templos era evitada, e os monges só a faziam quando precisavam de suprimentos - como água e sementes - ou quando desejavam se comunicar com outros monges. Os monges saiam pouco dos templos por opção e por não haver necessidade, pois os templos possuíam suas terras e lavouras. Como uma necessidade de sobrevivência as técnicas de auto defesa começaram a desenvolver-se.

Com a chegada de Bodhidharma, discípulo iluminado budista que vem buscar a difusão da verdadeira doutrina de Buda as técnicas se apuram. Ele trás consigo o Vajramushti, método de defesa e ataque proveniente da Índia, e que, somado aos exercícios dos monges chineses e à necessidade de defesa, inaugura o Kung Fu de Shaolin, desde seu início mais do que uma simples forma de luta, um caminho para a iluminação e sobrevivência digna de homens que desejam viver em equilíbrio com seu meio.

Os exercícios desenvolvidos por Bhodidarma foram conhecidos por: as 18 mãos de Lo Han (Shiba Luoan Shou). Inicialmente a prática buscava apenas preservar a saúde dos monges que estava debilitada devido às meditações constantes em posturas desagradáveis. Todos os movimentos tinham uma sintonia com o ser mais íntimo, refletindo e buscando um equilíbrio entre mente, corpo e o universo, fato que lhes dava enorme maestria nos combates.

ShaolinOutro fato que estimulou o desenvolvimento do Kung Fu em Shaolin foi que ambos os exércitos que lutavam pelo domínio do território chinês não detinham o apoio dos monges (salvo algumas exceções). Esse fato teve como conseqüência a caça e o assassinato de muitos monges shaolins pelas forças dos dois lados, pois além de os monges não se colocarem nem a favor nem contra ninguém, desenvolveram uma enorme e assustadora técnica marcial, resultado de árduos e longos treinamentos, juntamente com o desenvolvimento da meditação e da energia interna, algo que assustava os imperadores. “É importante lembrar que o fato de que os monges fizessem voto de castidade juntamente a treinamentos esgotadores, dava como resultado um método vigoroso para dirigir a energia sexual” (o espírito das artes marciais p.55) Sempre lembrando que naquela época as armas para a guerra eram brancas, as batalhas se davam no contato direto: corpo a corpo e as lutas já faziam parte do quotidiano há algum tempo. Hoje, por exemplo, praticar Kung Fu (Wushu moderno) é regulamentado na China, e ele é ensinado em muitas escolas e faculdades.

No norte da China, localização geográfica de Shaolin, a estatura dos homens é mais alta, por isso os chutes são bem desenvolvidos; o chão é firme e o equilíbrio, a respiração e a concentração são também muito desenvolvidas.

A história nos diz que muitos militares e nobres derrotados nas guerras ou fugidos delas (principalmente depois da invasão dos Manchus) buscaram refúgio em Shaolin, o que possibilitou aos monges aprender, estudar, compilar e aprimorar uma técnica de defesa altamente avançada.

“Atualmente estudiosos e pesquisadores compartilham a idéia de que a origem do Kung Fu de Shaolin não deve ser atribuída a uma só pessoa ou a uma simples escola do monastério Shaolin. Eles sustentam que o Wushu de Shaolin foi criado e desenvolvido pelos monges do monastério ao longo dos anos ” (fonte?) ", com bases em formas populares antigas, na observação dos movimentos dos animais, nos benefícios perceptivos da meditação e nas demais influências que nos são impossíveis de descrever e conhecer no seu todo.

Um vez li num site da internet, cujo endereço eu perdi, um texto que julguei interessante, o reproduzo aqui entre aspas com alguns comentários meus: “Na prática do estilo Shaolin, equilibrando força e graça, ou“rigidez” com “suavidade” os movimentos são simples e diretos, rápidos e sólidos, todos realizados em posturas naturais e flexíveis, sempre com a coluna reta respeitando a lei da gravidade, juntamente com um trabalho de pernas firme e leve, baseado nos animais e elementos da natureza. Nele estão contidos todos os elementos do corpo humano e da alma. Os socos são como ondas, com os braços nem completamente flexionados nem estendidos. Os olhos estão fixados no adversário lendo suas intenções. Os pés são sólidos como as pedras, cravados no chão como raízes de árvore. O corpo flui como um dragão voador. As mãos se movem como estrelas cadentes. Os ataques são duros e fortes como os do tigre, mas não excessivos; eles podem ser flexíveis como o junco sob a ação do vento mudando sob um tipo e outro de ataque. A defesa é gentil como uma moça, macia mas não fraca. Em combate quem domina o estilo Shaolin apresenta aparência impetuosa, mas permanece internamente calmo, equilibrado. Resumindo, sua prática envolve todas as partes do corpo e foi desenvolvida para aumentar a resistência, força, velocidade, equilíbrio e elasticidade, além de aprimorar a capacidade de concentração e respiração.”

O Kung Fu necessita de um vasto número de informações e disciplinas. Os antigos “shaolins” estudavam: medicina, meditação, música, artes, fabricação de armas, religiões, criação de animais, massagem, cartografia, línguas, história, astrologia e Kung Fu. O adepto deveria ser mais do que uma simples máquina de lutar, deveria saber como, onde e por que entrar numa luta e, até mesmo, saber como evitar o conflito. Somente com a habilidade de um mestre ele estava seguro o suficiente para saber a hora certa de usar sua técnica sem “viagens de ego”, sem precisar provar nada a ninguém.

Outro fato interessante sobre Shaolin e a difusão do seu Kung Fu é que durante mais de um milênio o Kung Fu de Shaolin só era ensinado aos monges. Somente no século XVII foi aberto a leigos. Hoje ele é a Arte Marcial mais conhecida e praticada no mundo.

O estilo Shaolin aprendido por mim engloba vários estilos (internos, de influência taoísta em que a mente e a concentração de energia primam sobre a força muscular; e externos, de influência budista, em que a resistência muscular, a força e a velocidade primam). Tudo isto devido ao fato de o Grão Mestre Chan Kwok Wai (introdutor do Kung Fu no Brasil) ter estudado e se tornado herdeiro de diversos estilos e à multiplicidade de estilos praticados dentro do templo. Dentre os externos cito o Ton Lon, com movimentos inspirados no louva-a-deus: velocidade e agilidade. O Choy-li-fat imita o tigre e o dragão, com golpes muito fortes. O Luo Han é baseado nos movimentos dos monges. Dentre os internos o Pa Kua imita os movimentos do dragão e se baseia nos oito trigramas principais do I-ching. Elevada forma de luta, neste estilo, o artista hábil, através de movimentos circulares em torno de seu próprio eixo e em volta do inimigo, produz dentro do movimento uma grande quantidade de chi.

Shaolin, como o conhecemos na história clássica, foi destruído pelos Manchus em 1734. Hoje é um local de prática marcial voltado ao comércio.

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