Filosofia e Religião
Meditação (dhyana em sânscrito; chan em chinês)

“Por isto diz o Bagavad Gita que ”o ego é o pior inimigo do Eu, mas o Eu é o melhor amigo do ego”.
O homem plenamente realizado pela sapiência não é inimigo do mundo mental e material, mas serve-se desses mundos como meios para atingir a sua meta espiritual, consoante a sabedoria de Krishna: “O ego é um péssimo senhor, mas é um ótimo servidor”
Senhor Krishna (119/120)
Primeiramente gostaria de dizer que é impossível compreender o significado da palavra meditação sem ter alguma experiência com ela. Explano aqui meus pontos de vista sobre tal assunto devido a minha crença de que todo ser humano medita quase que diariamente, mesmo sem saber estar meditando. Em qualquer hora do dia, em qualquer situação de nossas vidas podemos meditar.
“A energia que normalmente se move para o pensar, se moverá para a observação. Essa é a alquimia da meditação: mudar a energia que se move do pensar para a observação... Como não ser um pensador mas uma testemunha. Mas seja brincalhão ao observar sua respiração, não faça disso um trabalho.”
Meditação significa consciência, equilíbrio. Meditar é conectar-se com o âmago mais profundo de seu ser, é entender-se como parte do todo. Meditar é abrir os olhos internos. Meditar é olhar para si mesmo, é marcar um encontro consigo mesmo. É descobrir-se sozinho no mundo, é saber viver com a própria solidão, é descobrir que nunca estaremos sozinhos porque estamos sempre com nós mesmos. Meditar é tirar os óculos da mente – embaçados pelo preconceito, moral, religião, crenças, ideais, esperanças, etc. - e perceber o mundo e a si mesmo diretamente, espontaneamente. Pois tudo que a mente pode fazer é contrário à meditação: a meditação começa onde a mente termina.
Meditar é ver que você não é seus pensamentos. Meditar é descobrir que existe uma distância entre sua mente e seu ser. Quando você sente esta distância, você se afasta, perde sua identificação com ela. E neste momento existe toda uma possibilidade de cortar as raízes, parar de alimentar a mente e, conseqüentemente, parar de ser sugado por ela.
Existe uma história sobre Buda que ilustra bem este assunto: “Diz a lenda que um dia, já em idade bastante avançada, Buda passava por uma floresta. Era um dia quente de verão e ele estava com muita sede. Então ele disse a Ananda, seu discípulo-mor: “Você precisa voltar, passamos por um pequeno riacho cinco ou seis quilômetros atrás. Vá, leve a minha vasilha de esmolas e me traga um pouco de água. Estou com sede e cansado.”
Ananda retornou, mas, ao chegar ao local, percebeu que alguns carros de bois haviam atravessado o riacho, revolvendo o leito de folhas secas e deixando a água enlameada. Já não era mais possível beber daquela água, ela estava muito suja. Ele voltou com as mãos vazias dizendo: “Você precisa esperar um pouco. Eu vou seguir adiante, pois ouvi falar de um grande riacho a apenas três ou quatro quilômetros daqui. Eu trarei água de lá.”
Mas Buda insiste dizendo; “Volte e traga água do mesmo riacho.”
Ananda não conseguia entender tanta insistência, mas, se o mestre estava ordenando, o discípulo obedeceria. Assim, retornou ao riacho, mesmo sabendo do absurdo que seria caminhar cinco ou seis quilômetros, sabendo que a água não era boa para ser bebida.
Ao retornar, Buda disse; “E não volte se a água ainda estiver suja. Se estiver suja, simplesmente sente à margem do riacho. Cedo ou tarde a água estará límpida novamente, você poderá encher a vasilha e voltar.”
Ananda retornou ao local. Buda estava certo: a água estava quase límpida, as folhas tinham sido levadas, a sujeira tinha assentado. Mas ainda não estava absolutamente límpida. Assim ele se sentou à margem e apenas observou o rio fluir. Lentamente, ele se tornou transparente como um cristal e Ananda retornou dançando. Ele havia entendido por que Buda fora tão insistente, pois na sua insistência Buda havia deixado uma mensagem que ele compreendera. Ananda entregou a água a Buda e o agradeceu, tocando seus pés.
Buda então disse: “O que você está fazendo? Sou eu quem deveria agradecê-lo por ter me trazido água.”
Ananda retorquiu: “Agora eu entendo. No início, eu estava com raiva. Eu não demonstrei, mas estava com raiva porque achava que era absurdo voltar. Agora entendi a mensagem. Sentado á margem do riacho me dei conta de que a mesma coisa acontece com minha mente. Se eu mergulhar no rio, eu o sujarei novamente. Se eu mergulhar na mente, apenas criarei mais barulho, mais problemas serão desenterrados e irão começar a aparecer. Aprendi a técnica simplesmente ao sentar a margem”.(Osho “Aprendendo a silenciar a mente: um caminho para a paz, alegria e criatividade” pág. 86 editora Sextante, 3º edição, Rio de Janeiro 2002.)
Esta mensagem é muito profunda, ela diz: sente-se à margem de sua mente, apenas pare e observe, você não é a mente. Escute exatamente como você escuta os passarinhos cantando ou o vento passando através dos pinheiros ou o som da água correndo. Não interfira. Observe a sua mente. Feche os olhos, o que você vê? “Sua mente fica sonhando – dia após dia, ela continua sonhando. Durante o dia, os sonhos são conhecidos como pensamentos, eles são sonhos verbais. À noite, os pensamentos são conhecidos como sonhos, eles são pictórios. Mas não há diferença alguma. E mesmo quando você está acordado, se você simplesmente fechar os seus olhos e olhar para dentro, você encontrará uma corrente sutil de sonhos pictórios continuamente em movimento como uma subcorrente”.(Tao: o portal dourado, Osho p.91)