Treino
Sanshou: a arte de lutar

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas.
Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota.
Se você não conhece nem o inimigo, nem a si mesmo, perderá todas as batalhas ... “
Sun Tzu
No sanshou encontramos mais uma forma de mobilizar o chi dentro do kung Fu. Ao mesmo tempo em que estimula o processo de luta nas pessoas e o desbloqueio da criatividade, possibilita um maior contato consigo mesmo e com o outro, mais ou menos como uma terapia. A gente faz kung Fu para ter paz, proteção, equilíbrio; a gente faz guerra no tatami para ter paz na vida. E “a vitória de hoje é sobre o você de ontem”.(Miyamoto Musashi O livro dos cinco anéis p.79)
Estudemos melhor a questão:
Uma das principais características de nossos desequilíbrios é o afastamento de nosso “eu” real e a adoção de valores que não representam nossos desejos e aspirações. Conectar-se novamente com nosso centro, às vezes, é muito difícil, mas de vital importância, e o sanshou é ótima ferramenta para essa busca. “A vitória é certa quando o inimigo for pego em um ritmo que lhe confunda o espírito”.(94) Já dizia o grande samurai Miyamoto Musashi.
Durante o sanshou, o aluno é obrigado a produzir respostas rápidas e espontâneas, nesse momento, se depara com os bloqueios e as estratégias que usa em seus enfrentamentos e lutas cotidianas. O inesperado quebra com nossos hábitos e nos obriga a ser inventivos, criativos, a estar 100% no agora. Li que na China se usa a palavra ‘mushin’. “A experiência de mushin ocorre quando não existe ruptura ou separação nem de um segundo entre o desejo, o ato e a execução do mesmo. Quer dizer, estar sem pensamentos conscientes idéias e sentimentos no tocante à execução da tarefa, ainda que, obviamente você a esteja executando. Tal tarefa deve ser feita instantânea e facilmente, permitindo às faculdades naturais de atuar livremente e desinibidas”.(O espíritos das 85) É por isso que durante o combate nossa mente deve estar livre de pensamentos, totalmente sintonizada com o corpo, em outras palavras, equilibrada. É também por isso que se alcança a descarga completa de energia. É como no zazen, onde cada uma de nossas inspirações ou expirações é a de agora, e não volta jamais, o que nos possibilita nos tornar frescos, novos. Justamente por este fato que nas artes marciais não existe vitória nem derrota, ganhador ou perdedor, a vida é muito maior, muito mais complexa e composta por milhares de derrotas e vitórias. Uma história escrita por um discípulo de Lao-Tzu sobre galos de briga ilustra bem este pensamento:
“Um rei desejava ter um galo de briga muito forte e havia pedido a um de seus súditos que educasse um. A princípio, este ensinou ao galo a técnica da luta. Ao fim de dez dias o rei perguntou:” Posso organizar um combate com este galo?’ Mas o instrutor disse: “Não, não! Ele é forte, mas esta força está vazia, sempre quer lutar; está excitado e sua força é efêmera”.
Dez dias mais tarde, o rei perguntou ao instrutor: “E agora, posso organizar a briga?” “Não, não.
Ainda não, pois ainda está apaixonado, sempre quer lutar. Quando escuta o cantar de outro galo, inclusive o de uma aldeia vizinha, se encoleriza e quer brigar.”
Depois de dez novos dias de treinamento, o rei novamente perguntou: “E agora, é possível?” O treinador respondeu: “Agora já não está apaixonado. Se ouve a voz de outro galo, permanece tranqüilo. Sua postura é justa, mas sua tensão é forte. Já não se encoleriza. A energia e a força se manifestam na superfície”. “Então, está pronto para o combate?” Disse o rei. O educador respondeu: “Talvez”. Trouxeram então numerosos galos de briga e se organizou um torneio. Mas os galos de briga não podiam aproximar-se do galo treinado. Fugiam assustados!“.
“Por isso, não há necessidade de combater. O galo de briga se converteu num galo de aço. Superou o treinamento da técnica. Interiormente tinha uma energia forte que não se manifestava no exterior. O poder se encontrava desde então, nele, e os demais galos não podiam fazer outra coisa senão inclinar-se diante de sua segurança tranqüila e sua verdadeira força oculta”.(82)
Um ensinamento do bushido (código de honra dos samurais) nos diz: “Se o adversário é inferior a ti, por que brigar? Se o adversário é superior a ti, por que brigar? Se o adversário é igual a ti, compreenderá o que tu compreendes e não haverá luta”.
Voltando. Assim que se familiariza com a técnica, o praticante começa a usá-la do seu jeito criando movimentos próprios. Sintonizados com seu espírito. Essa é a música de sua alma, a vibração da sua energia. A cada nova esquiva, ataque ou defesa, o praticante se depara com situações impensadas, mas necessárias a sua vida. Acredito ser assim também na vida real. Uma nova situação, uma nova dificuldade requer uma nova resposta ou solução. Quanto mais estivermos capacitados para criar espontaneamente, tanto mais seremos conscientes de nós mesmos. Quanto mais conectados e sintonizados com nosso espírito mais facilidade teremos de observar e sentir o espírito dos outros.
Na China, o ideograma que representa a palavra “crise” wei-ji, é composto por duas “palavras”: ‘perigo” e “oportunidade”. E é exatamente isso que encontramos no sanshou: ‘perigo’ e ‘oportunidade’. “Perigo”, pois no sanshou, quando vivido intensamente, é nosso espírito que luta, é nossa energia que busca a vida; e “oportunidade”, justamente porque nessas horas somos jogados, cara a cara, com nosso destino, no aqui agora da luta nos deparamos com duas chances, duas escolhas, duas ”oportunidades”, ou a derrota (a morte) ou a vitória (a vida). Perigo e oportunidade do centro da crise, muito significativo. Sinto se dar assim também nosso desenvolvimento. Nosso “processo criativo de evolução cultural”(como concebe Capra Fritjof ) se dá quando somos obrigados a produzir respostas diferentes a estímulos diferentes que não encontram mais soluções nas respostas que éramos acostumados a dar. Isto é crescimento, isto é desenvolvimento. Nas palavras de Capra Fritjof: “Quando estruturas sociais e padrões de comportamento tornam-se tão rígidos que a sociedade não pode mais adaptar-se a situações cambiantes, ela é incapaz de levar avante o processo criativo de evolução cultural. Entra em colapso e, finalmente, desintegra-se. Enquanto às civilizações em crescimento exibem uma variedade e uma versatilidade sem limites, as que estão em processo de desintegração mostram uniformidade e ausência de inventividade. A perda de flexibilidade numa sociedade em desintegração é acompanhada de uma perda geral de harmonia entre seus elementos, o que inevitavelmente leva ao desencadeamento de discórdias e à ruptura social.” (O ponto de mutação, p26) No macro o micro. Nossa organização social reflete nossa organização individual, nossas atitudes de vida refletem nossa postura corporal, nosso equilíbrio físico anda junto com nosso equilíbrio emocional. Os chineses já sustentam estas idéias há cinco mil anos e, aqui no ocidente, elas vem sendo desenvolvidas e aceitas depois das descobertas de Freud, Capra, Reich, Lowen e outros.
De fato, com clarividência e com o uso da leitura corporal, é possível ao professor identificar onde a energia chi está estagnada, concentrada em demasia ou ausente. Cada região do corpo reflete facetas da personalidade. Já dizia o psicólogo João da Mata: “A capacidade expressiva do corpo é proporcional ao número de movimentos que podem ser feitos. Quanto mais encouraçadas, rígidas e tensas forem as partes ou o todo do corpo, menos expressivo este será e menos movimentos potencialmente poderá fazer. Uma pessoa sem expressão gestual ou facial, por exemplo, dificilmente expõe seus picos de alegria ou de prazer. Por outro lado, à medida que se expressa por meio de movimentos, gestos e atitudes não padronizadas, desfaz as tensões crônicas.” (69)
Na hora do sanshou nada pode ser mecânico, nada pode ser repetitivo ou copiado. Isso significaria a morte do artista marcial e, por isso, o sanshou estimula o desenvolvimento da individualidade e da autonomia. O que é bem diferente dos exercícios repetitivos e reducionistas das ginásticas ocidentais. Utilizando-me novamente do conhecimento de João da Mata: “Os exercícios de ginástica, os chamados exercícios de calistenia, produzem a repetição do movimento sem a necessária conscientização. Correspondem ao mesmo padrão de automatismo do trabalho burocrático, das fábricas, dos escritórios: a massificação dos movimentos e das posturas. Esta uniformidade gerada pela falta de contato consigo mesmo, vivida de forma mais ampla na sociedade, produz a perda da individualidade e corresponde ao que Reich chamava de produção em massa de uma subjetividade destroçada e a serviço do autoritarismo.”(71) O filme Tempos Modernos é um bom exemplo?.
Ora, no sanshou isto é bem diferente. Como eu já disse, quando luto, é meu espírito que luta. Meu cérebro está em meu corpo todo. Não tenho mais centenas de músculos, e sim um só, com um único propósito. Não estou mais fragmentado, cindido e dividido em corpo, mente e alma, estou 100% presente, 100% vivo, 100% no aqui agora: integrado.
Na hora da luta, a situação de enfrentamento real, de combate, excita nosso corpo, nossos sentidos. O corpo ruboriza, se inunda de vida, transborda, se ilumina, os olhos brilham, a sensação é a de que se poderia lutar com dez ou mais homens e ainda assim sair vitorioso (e não são raras às vezes em que isto aconteceu e acontece). Findado o processo, o descanso vem como um copo d’água num deserto, a catarse é tamanha que a experiência posterior a ela é de profundo relaxamento, um relaxamento completo: muscular, mental, espiritual. O que é ótimo do ponto de vista energético e fisiológico, é um esvaziar completo (de tudo de ruim e de tudo de bom) e um reorganizar, nutrir completo.
No sanshou os comportamentos não verbais são os únicos que têm valor. A linguagem do corpo é a dominante. Nessa troca, saber se colocar, enganar o adversário, trabalhar a mentalidade do adversário para melhor encaixar seus golpes é essencial e vital. Assim, o mais capacitado a criar, o mais capacitado a se mover é também o mais capacitado a viver, a sair vitorioso desta luta. Bruce Lee falava: “O seu golpe deve ser sentido antes de ser visto”. (51) Sun Tzu dizia: “Atacai-o onde não estiver preparado.
Executai as vossas investidas somente quando não vos esperar”.(30) Miyamoto Musashi ao descrever o ataque “contágio” revelava: “... quando o inimigo está agitado e mostra uma inclinação para a pressa, não se incomode. Demonstre total calma, e ele será contagiado, relaxando a guarda. Quando você vir que esse espírito foi transmitido, leve o inimigo à derrota, atacando com força no espírito do vazio... você poderá vencer se relaxar o corpo e o espírito, preparado para o momento em que o inimigo também relaxa, e atacar com força e rapidez, antecipando-se a ele." (92)
Metáfora da vida, o sanshou se torna um espaço de exercício da criatividade e individualidade necessárias para se enfrentar os adversários e os desafios encontrados em nossa vida. É uma busca pelo “eu” real existente dentro de nós e, muitas vezes, perdido dentre tantos “eus” inautênticos. Como saber a distância certa a tomar se não sinto as sensações de meu corpo?! Como saber a hora certa de atacar se não estou em contato com meu centro?!
Também durante o sanshou, pode-se observar as diferenças de cada um ao se expressar, pois cada um tem sua própria linguagem, seus ataques, suas defesas e suas esquivas, que são únicas, visto que cada um luta do seu jeito e visto que não existe uma luta igual à outra ou duas pessoas que lutem igualmente. Assim, a criatividade, as expressões corporais, a astúcia mental e a unificação do espírito são estimuladas e necessárias.
No sanshou ninguém se machuca. Os dois “artistas lutadores” devem simplesmente mostrar um para o outro e para si mesmos que poderiam, se assim fosse necessário, desferir um golpe que provocasse danos. Quando paro minha mão a milímetros do rosto de meu adversário, estou fazendo isto. Mas quando me machuco ou machuco alguém, com certeza algum desequilíbrio está presente. O diálogo corporal da luta, que se assemelha a uma dança, não pode ser quebrado, ele tem velocidade própria, está além do controle dos lutadores, ele acontece, tem vida própria: “Não ‘estou fazendo isso’, mas percebo que ‘isso está acontecendo através de mim’...” (Bruce p.21) Esse jogo exercita a percepção e a capacidade de comunicação saudável, onde um aprende com os erros e acertos do outro, onde um mostra, sem máscaras o que sente e deseja. Por isso o “olho no olho”, a necessidade de estar 100% presente no aqui agora. Do contrário... Justamente por isso, os lutadores precisam ser flexíveis, ter os sentidos aguçados e desenvolvidos (consciência), em outras palavras, precisam estar vivos. Só assim a sintonia necessária para a realização da luta acontece.
Existe dor, sim, muitas são às vezes em que erramos, em que acertamos golpes, pois a luta é real, assim como a vida é real, e não somos seres iluminados. Quando o praticante tem consciência da filosofia, tem consciência de que a luta é consigo mesmo, que não existe crescimento sem sofrimento, alegria sem tristeza, amor sem ódio, ele vivencia a dor e as dificuldades com prazer, êxtase, pois sabe que só assim pode crescer, pois têm em suas mãos as rédeas de sua vida e sabe ser este o seu caminho. Cada ser é singular, individual e acredito que certas pessoas encontram no Kung fu seu caminho, outras na dança, outras na pintura, etc.
Como eu já disse, no sanhou ninguém ganha, ninguém perde. As pessoas simplesmente crescem, enxergam seus defeitos e qualidades, dialogam. “Aprender Jeet Kune Do não é uma questão de buscar o conhecimento ou de acumular padrões estilizados, mas sim de descobrir a causa da ignorância”.(238) É um fato interessante o introdutor do Kung Fu de Shaolin no Brasil, o Grão Mestre Chan Kowk Wai, não gostar nem estimular campeonatos de luta entre seus alunos. E pelo mesmo motivo as faixas e demais graduações não são utilizadas por mim. Ninguém é melhor do que ninguém, todos somos diferentes, universos em miniaturas, e sempre temos o que aprender com os demais. Quando observo, por exemplo, um aluno sedento pelo sanshou lutando com uma criança de seis ou sete anos, devagar, calmo, consciente, adaptado a ela, lhe digo que está improvisando, controlando-se, o mesmo acontece quando vejo alunos fortes treinando suaves com colegas mulheres, e isso é lindo, maravilhoso.
Entregar-se, perder e dar, para o ego, é como a morte. Mas no momento em que transcendemos o ego e nos entregamos, e nossa consciência se entrega (quando essa entrega é verdadeira e não mais um jogo, mais um mecanismo de defesa) manifestamos grandeza, provamos que somos os senhores, pois comandamos a ponte de admitir a derrota, a ponte de se entregar; admitir a incapacidade é o primeiro passo para ser capaz. Admitir a derrota é às vezes mais saudável que vencer. “Os pensadores chineses evocam com freqüência a flexibilidade dos pinheiros que se dobram sobre o peso da neve, depositada suavemente sobre eles e que não se acumula em seus ramos... a maior rigidez dos pinheiros faz com que sobre eles, se produza uma acumulação maior de neve, que ao final, termina quebrando seus ramos.” (O Espírito das 98)
No seu último filme, Brucce Lee, interpreta um diálogo muito significativo com um “mestre” do templo Shaolin:
Mestre: “Vejo que seu talento ultrapassou os limites físicos. Suas habilidades já tem um insight espiritual. Tenho algumas perguntas: Qual é a técnica que deseja alcançar?”
Lee: “Não ter técnica”.
Mestre: “Bom! O que pensa ao enfrentar seu adversário”?
Lee: “Não existe adversário”.
Mestre: “E por que?”
Lee: “Porque a palavra ”eu” não existe.”
Mestre: “Bem, continue”.
Lee: “Uma boa luta deve ser... como uma pequena peça de teatro, porém, desempenhada a sério. Um bom artista marcial não fica tenso, mas preparado. Não pensa, e também, não sonha. Está pronto para tudo. Quando o adversário expande, eu contraio. Quando ele contrai, eu expando. E, quando há uma oportunidade... não o atinjo. Ele mesmo se atinge”.
Outro fator terapêutico do sanshou é que independentemente de peso, tamanho, idade, cor ou sexo, todos têm chance de êxito. Muitas alunas minhas saem-se melhores do que muitos homens nos combates. Muitos alunos gordos e lentos, quanto sintonizados consigo mesmos, conscientes de seus limites e potenciais, obtêm vantagem sobre alunos magros e fortes. Isto prova que o sanshou não é uma simples troca de socos e chutes. Muitos se usam de outras ‘armas’ no combate, a ameaça de um golpe no rosto, por exemplo, direciona a atenção do adversário a parte superior do corpo, expondo-lhe as partes inferiores. Bater o pé no chão com força, uma simples olhada rápida, a ameaça de um giro, uma feição de rosto, tudo isto faz parte do sanshou. É o que chamamos de trabalho de mentalidade, estratégia. É a esperteza, a agilidade mental e física combinadas, é a totalidade do ser agindo num único propósito.
Com o passar do tempo, com o desenvolver das habilidades físicas e mentais, o praticante descobre que o difícil não é acertar o adversário e sim não acertá-lo. O difícil é o controle de não soltar um soco tendo a possibilidade de soltá-lo. O difícil é não derrubar podendo derrubar. O difícil é o controle, a consciência. E isso é transcendência.
Para fazer uma boa luta não se depende só de técnicas. O equilíbrio se dá na totalidade do treino que envolve os katis, a meditação, a consciência corporal, os alongamentos, a disciplina, o prazer e muitos outros fatores que o kung Fu engloba:
“Os valentes lutam, os cautelosos se defendem e os sábios aconselham. De nenhum se perde o talento”. (Sun Tzu pág: 57)
Assim, o sanshou é mais um caminho que o kung Fu oferece para se chegar à saúde. Quem pode lutar por nossa liberdade senão nós mesmos?!
E tudo isto para quê? Chega uma hora em que se alcançam os limites do corpo físico, essa é a hora de transcendê-lo, de observar e desenvolver outros detalhes, mais sutis, que antes estavam ocultos, como o corpo espiritual.
