O exemplo de Morihei Uyeshiba

Morihei Uyeshiba

“O professor Morihei Uyeshiba, fundador do Aikidô, nasceu na província de Watayama, Japão. Em sua infância era enfermo e débil e ninguém poderia imaginar que viria a ser um homem de saúde robusta e fundador de uma arte marcial. Decidiu, em tenra idade adestrar seu corpo para as artes marciais. O criador do Aikidô, que presta tanta atenção à disciplina espiritual e ao exercício mental, se decidiu originalmente, como todos os demais, a adestrar-se unicamente no plano físico.

Praticou quase todas as artes marciais existentes, começando com o Kitoryu Jujutsu, Yagyu- Ryu, Aici-Ryu, Hozoni-Ryu e finalmente o Daite-Ryu. Tudo aquilo que lhe pareceu conveniente, ainda a ginástica de aparatos, Judô, Kendô, esgrima de baionetas, estudou e praticou conforme a oportunidade.

Viajava de cidade em cidade buscando mestres nas artes marciais e muitos parentes.Durante seu período de adestramento, buscando demonstrar máxima cortesia com seus mestres, encarregava-se até de preparar-lhes a comida. Uma vez começada a prática, se dedicava totalmente a ela. Em sua adolescência media somente um metro e cinquenta e dois de altura. Seu corpo débil e enfermo se fez forte como o ferro. Sua firme determinação era dedicar-se ao exercício de vencer a todo mundo.

Foi voluntário na guerra com a Rússia (1904/05) lutando na frente de combate e provando praticamente o domínio das artes marciais e sua fortaleza física. Munido somente com um Bokkon (espada de madeira para exercícios) percorreu todo o Japão, e cada vez que achava alguém de maior destreza, parava ali como discípulo até ter aprendido tudo que o mestre poderia ensinar-lhe e logo continuava sua caminhada. Chegou a ser o homem mais competente do Japão em Artes Marciais.

Quando se achava a ponto de realizar sua aspiração, começaram a surgir em sua mente certas dúvidas, não sobre uma das Artes Marciais em particular, senão que acerca de todas elas em geral. Ao derrubar os outros manualmente, ou por meio de armas, ou lutar e vencê-los, de que servia tudo isto em última instância? Perguntava a si mesmo: “Se isto é tudo o que de valor tem as Artes Marciais para nós, qual é seu valor real?”

“O vencer significa que algum dia seremos vencidos. O vencedor de hoje será o vencido de amanhã.”

“Em sua juventude você é fisicamente forte, porém essa força se desvanece com o passar dos anos e um homem mais jovem será capaz de derrotá-lo. Existe uma coisa que seja a verdadeira vitória?”

“Ainda que você seja vitorioso. Que representa para você? Aos olhos da Natureza vencer e ser derrotado no mundo humano não tem valor algum, nem mais significado que o fluir e refluir das ondas numa praia. Não será um desperdício gastar toda sua vida de esforços em semelhante coisa?”

Você talvez possa subjugar a outro, porém, não pode ser capaz de controlar sua própria mente. Se não pode controlar a sua mente à vontade, o vencer a outros não lhe trará nenhuma felicidade duradoura. Sua vaidade cairá satisfeita, mas, em que beneficia ela a humanidade em geral?

Uma vez implantada esta dúvida, conduziu a muitas outras e por fim a intermináveis meditações com respeito a todas as coisas. Quando iniciava uma tarefa, o professor Uyeshiba punha nela toda sua vontade e alma para terminá-la. Nessa oportunidade, deixou de lado as artes marciais e dedicou toda sua energia à resolução das dúvidas.

Bateu às portas de templos famosos, pôs-se debaixo do jorro de água de uma cascata para ”abrir os olhos da alma”. Determinado a resolver seu problema, continuou sua vida ascética. Solitário, no alto de uma montanha, movendo sua espada de madeira, se absorveu na pergunta: “O que é uma Arte Marcial?”

Depois de alguns anos de exercícios e peregrinações, um dia desceu da montanha, entrou no curral de uma casa no campo, derramou água sobre seu corpo e contemplou o céu azul. Repentinamente, experimentou uma estranha inspiração. Sentiu-se exaltado, deleitado enquanto as lágrimas rolavam por seu rosto numa expressão de gratidão ao céu e à terra. Num piscar de luz percebeu, repentinamente, a verdade. Deu-se conta de se ter unificado com o Universo.

“Busca e encontrareis”. Ele tinha buscado a verdade com toda dedicação, tinha se esforçado pacientemente para encontrar a resposta e foi por vontade divina que a encontrou. Por último, unidos corpo e mente, experimentou a grande verdade da Natureza. Agora submetia seu próprio pequeno ser e fazia seu o espírito da natureza. Esta pode ser chamada uma revelação de Deus, um estado de percepção da verdade absoluta, em linguagem Zen.

O professor Uyeshiba, ao recordar-se do evento daquele dia relata a história como segue:

“Enquanto passeava pelo cercado a terra tremeu subitamente. Do solo emergiram vapores dourados que me envolveram e senti meu corpo também de ouro. Ao mesmo tempo, minha mente e meu corpo se aliviaram, podia compreender o canto dos pássaros e também o espírito do criador.”

“Foi precisamente neste momento que recebi o espírito da iluminação, o principio das artes marciais é o amor a Deus e o amor Universal. Dos meus olhos rolaram lágrimas de êxtase. Desde aquele instante, sinto que toda terra é meu lugar e meus são o sol e as estrelas. Nem posição social, fama, honras, riquezas, nenhum desejo de superar a outros tem atrativos algum para mim, tudo carece de valor aos meus olhos.”

“As artes marciais não empregam a força bruta para derrubar a outros, nem armas letais que levam o mundo à destruição. As verdadeiras artes marciais, sem lutas em absoluto, regulam o Ki da natureza, do Universo, cuidam da paz do mundo e progridem e guiam até a maturidade tudo o que existe.

Por tudo isto, o adestramento marcial não é aquele que tem como propósito primário derrotar aos demais, e sim a prática do amor a Deus, dentro de nós mesmos.” (O espírito das artes marciais – Roque Enrique Severino)

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